Parte integrante da programação do Circuito Cultural Banco do Brasil, que aconteceu em Belém de 20 a 30 de setembro, a peça de teatro “Eu Sou Minha Própria Mulher”, com Edwin Louisi, surpreendeu com sua versatilidade e dinamismo. O que superficialmente parecia ser estático e cansativo prendeu a atenção das 803 pessoas do Theatro da Paz por quase uma hora e meia de espetáculo. Sem troca de cenário ou figurino, fez com que todos viajassem na história da inusitada Charlotte Von Mahlsdorf, representando diversos personagens sem tirar as longas saias o colar de pérolas.
A peça trata da história verídica de um travesti que vivenciou os dois regimes mais sangrentos da Alemanha, montando e preservando um museu fantástico e mantendo um cabaré clandestino no porão de sua casa. Por isto sua vida desperta a atenção do americano Doug Wright, que decide eternizá-la em uma peça de teatro. A partir daí, Edwin Louisi faz um convite ao espectador e inicia uma aventura onde ilustra toda a vida de Charlotte, sem deixar que se perca um detalhe ou a linha de trajetória do espetáculo.
Bastante descontraído não aparentando cansaço, Edwin nos conta um pouco mais de toda a sua trajetória de trabalho para a montagem da peça. Confira:
- De onde saiu a idéia de montar um espetáculo retratando a vida de um travesti?
Bem, eu acredito que todo ator procura um texto bom para se trabalhar. Eu soube do texto, que ele foi feito nos Estados Unidos e obteve bastante sucesso, ganhou vários prêmios, então decidi conhecê-lo melhor. Vi que ele realmente tinha muito a ver com meu tipo de atuar, e sobretudo com minha faixa-etária. Então comecei a buscar, e decidi que podia fazer.
- Nada de especial então com relação ao texto?
Para falar a verdade eu nem conhecia a vida de Charlotte. Não sabia quem era, e fui estudar mais a fundo depois de ver o texto. Saber o que é cada coisa, a história mais detalhada da Alemanha na época, enfim.
- É impressionante a minuciosidade que é vista na representação de cada personagem, e a exclusividade das ações físicas buscadas em cada um. Esta busca começou de dentro ou foi logo sendo pesquisada fora?
Começou fora e depois foi vindo de dentro, para que cada coisa buscada pudesse se adequar ao personagem sendo criado. Claro, se o personagem é tímido, eu buscarei algo em meu corpo que torne aquele personagem tímido.
- Quanto tempo levou essa pesquisa e como foi a base para essa coleta de gestos e tipos?
Três meses. Na verdade foi assim: primeiro eu decidi fazer. Li o texto, traduzi, e depois comecei a decorar cada trecho, independente de qualquer coisa, afinal é um calhamaço de texto, e olha que ainda cortamos muita coisa. Cerca de 10 personagens não foram incluídos na montagem. E então, paralelamente a decorar e à medida que eu ia marcando e me familiarizando com a história, eu comecei a buscar tipos, aleatoriamente. Vozes, gestos, etc. Logo eu sabia que se fazia uma voz grave aqui, eu tinha de fazer uma voz aguda ali, até ter na cabeça que se eu tenho uma personagem se relacionando com outra também feita por mim, eu tenho de ter uma mudança que seja perceptível às pessoas. Foi uma matemática de interpretação, que necessitava de muita atenção. Por exemplo, a tia da Charlotte era lésbica, agora imagina botar na cabeça que, como homem, tinha de representar uma mulher e fazer para ela uma voz grave por ser lésbica (risos)! Foi meio louco, e o meu objetivo era fazer com que o público entendesse o código. Eu acabei construindo vários registros, e olha que nem sabia que tinha essa capacidade. Acredito que o fato de estar com 60 anos de idade ajudou muito no sucesso do espetáculo, pois quem sabe se tivesse 40 iria ter maturidade suficiente para encarar a cobrança de experiência, a busca de recursos. E é esse que é o diferencial do ator: ele melhora o seu trabalho com a idade.